Falta e excesso: o Artista da Fome de Franz Kafka

     Tomo uma cápsula de Epocler. Já é a segunda que bebo durante a viagem. O balanço do corpo, as freadas do carro  e as curvas da estrada intensificam ainda mais o mal estar que sinto. Voltamos da casa de meus pais. Sentado no banco do passageiro observo a escuridão da noite. Penso nos excessos que cometi durante o dia. Comi demais! Fome? Não, não era. Talvez de início, pois a viagem de ida foi longa. Entretanto, mesmo saciando a fome, não consegui me conter diante de todas as delícias que meus pais haviam preparado.  O desejo foi além da fome. Queria sentir o prazer do gosto. Naquele momento não me importava o quanto meu corpo gritava por socorro, eu queria mais. Então comi, comi e comi. Agora, sinto as conseqüências dessa desmedida. Há um ditado bem popular, que desde a infância escuto e, agora, não me sai da cabeça: “Você tem o olho maior que a barriga!”. Os faróis de encontro ao nosso carro me fazem sentir vontade de vomitar.
     Penso, inevitavelmente, no homem encarcerado, narrado por Franz Kafka. Como é difícil ser um artista da fome! Eu não conseguiria ficar sem comer, me mostrar como vitrine de tal façanha. Como essas vontades, tanto as dos excessos quanto as da privação de alimentos, podem trazer sofrimentos? A busca pelo prazer do gosto ou pelo repúdio ao alimento revela a insatisfação. Em alguns casos por pouco e, já em outros, por muito. Falta e excesso. O artista da fome não queria comer, aliás, não poderia comer. Tinha um objetivo a cumprir, uma meta à alcançar. Mais que um artista, queria ser um herói, ir onde ninguém jamais foi. Ser desejado, admirado. O que conquistara até o momento não era o suficiente. Não importava o sofrimento: queria mais!  Já no meu caso, queria saborear intensamente tudo que ali havia. A dilatação das paredes de meu estômago não me impediu de desfrutar a sensação do gozo. O que eu havia comido até o momento não era o suficiente. Não importava o sofrimento: queria mais! 
     Penso que, tanto na falta como nos excessos, podem haver componentes orgânicos, fisiológicos e hormonais envolvidos. Contudo, há um fator que se revela de grande importância: o olhar do outro. Vivemos em uma sociedade de aparências. O que se mostra, muitas vezes, estabelece-se como verdade absoluta.  Qual verdade desejamos? Talvez aquela que confira admiração, prestígio e bem estar? Há uma pressão social pela beleza, pela magreza. Por isso acredito no sofrimento daquele que deixa de comer para se enquadrar em uma norma. O que é prazer deixa de ter sentido, dando margem a outra sensação: repúdio. O alimento, de aliado, necessário e vida torna-se rival, fracasso e morte. Então, mutila-se o corpo. Decepa-lhe a boca. Daí evita-se tudo que entra e quando algo entra não dura muito tempo dentro do corpo: volta para fora carregado pela fraqueza das entranhas do corpo humilhado, indigno de qualquer prazer, a não ser aquele prazer  inalcançável do artista da fome, porém não menos desejável por isso. Mas de maneira semelhante ao ocorrido com o artista da fome, o que era admiração agora tornou-se espanto. O “público”, antes desejante da magreza agora a teme. Sua fragilidade e proximidade espantam e incomodam as pessoas. O fardo torna-se, então, mais pesado àquele que jejua.  
     E o que pensar daqueles que o alimento não deixou de ser prazer? Aqueles que não conseguem deixar de comer, mesmo sabendo o mal que isso está causando ao corpo. Mesmo frente ao risco de morte, tanto morte do corpo quanto o expurgamento social, não são o suficiente para fazê-lo deixar de buscar o prazer de comer. Sofrimento. O que fazer? Render-se as navalhas que cortam a carne é uma opção. Mas as vontades, mesmo com o corpo mutilado elas ainda sobrevivem. Pois bem, usaremos, então, as navalhas para cortar o desejo. Mera ilusão, ainda não há lâminas tão afiadas assim.

Para ler a obra de Franz Kafka "Um Artista da Fome" acesse o livro virtual: http://www.docstoc.com/docs/19516243/Um-Artista-da-Fome-%5BFranz-Kafka%5D

Comentários

Postagens mais visitadas