ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA:
Críticas na atuação do SASF.
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos
A obra de Saramago desperta em nós os mais diversos sentimentos e instiga nossa imaginação a lançar voos sem limites. O livro Ensaio sobre a Cegueira discursa sobre uma cidade que é tomada por uma onda misteriosa de cegueira. As pessoas se contaminam em contato com as outras. Um caos sem precedente se instala. A população não estava preparada para isso, o governo também não. De início os “infectados” (os cegos) são asilados, trancafiados e largados a própria sorte. Com o tempo os espaços criados para a quarentena não dão conta de abrigar todos os cegos e o mal se torna geral. Mas há uma exceção. Uma mulher não fica cega, apesar do contato com seu marido que está infectado, sendo ela o ponto chave para a proteção de um grupo de pessoas que, diante da cegueira, trilham um caminho cheio de perigos e incertezas[1].
Mas porque essa mulher em especial não ficou cega? Esse ponto me fez lembrar da Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin. Em resumo, Darwin revela que todos os seres vivos são compostos por características que podem divergir entre os organismos e, portanto, serem preponderantes na sobrevivência dos indivíduos diante de uma alteração ambiental. Um exemplo clássico que mantém viva sua tese até os dias atuais é o das mariposas inglesas. Em algumas cidades da Inglaterra existiam duas espécies de mariposas: as brancas, em maior número, e as escuras, em um número menor. Como as folhas e os caules das plantas eram claros, as mariposas brancas se camuflavam de seus predadores nelas. Entretanto, as mariposas escuras não tinham a mesma sorte, pois eram facilmente identificadas nas plantas e, assim, tornavam-se presas fáceis das aves. No entanto, diante da Revolução Industrial[2] e, conseqüentemente, do aumento da poluição na região, as plantas tiveram suas folhas e caules escurecidos pela fuligem das chaminés. Diante dessa alteração ambiental as mariposas escuras, outrora facilmente identificadas pelos predadores, depararam-se com um ambiente mais seguro e, assim, houve um aumento no número de indivíduos dessa espécie. Em contrapartida, as mariposas claras tiveram sua população reduzida, pois ficavam em evidência sobre as plantas escuras, facilmente identificadas pelos predadores. Isso é seleção natural: as características dos indivíduos estão diretamente ligadas à sobrevivência destes diante das possíveis alterações ambientais[3].
Mas o que tudo isso tem a ver com a história escrita por Saramago? A mulher que não ficou cega provavelmente tinha características que a protegiam da contaminação da cegueira. Diante da alteração ambiental, no caso a epidemia de cegueira, essa mulher era o indivíduo mais adaptado a sobreviver.
Relatos
Os Orientadores Socioeducativos do SASF (Serviço de Assistência Social Familiar de Proteção Social Básica no Domicílio) assistiram o filme Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles. A proposta era que, diante do filme, fossem produzidos textos que pudessem trazer as impressões que cada um teve diante da obra. Um material riquíssimo surgiu, com inquietações e reflexões dignas de publicação. Pretendo fazer aqui uma síntese desses pensamentos e dialogar com eles.
Começamos com Adebaldo de Oliveira, que traz reflexões sobre a cegueira política e econômica que existe atualmente. Para ele os problemas da atualidade, os quais merecem atenção especial, são deixados de lado, ignorados, esquecidos. Ficamos cegos frente a eles. Em suas palavras: “A sociedade se cala.” O pensamento de Adebaldo me remeteu a experiência de Fernando Braga[4], psicólogo que em sua formação passou alguns anos trabalhando como gari da Cidade Universitária, com o objetivo de se aproximar daquelas pessoas e vivenciar os sentimentos que poderiam existir naquele grupo. Certo dia, enquanto trabalhava na limpeza das ruas, lembrou que precisava ir até o prédio da Faculdade de Psicologia. Vestido de gari entrou no prédio e para sua surpresa seus colegas de sala e, inclusive os professores, não o reconheceram. As pessoas passavam por ele sem notá-lo, sequer olharam para ele. Sentiu-se um homem invisível. Quantas pessoas são ignoradas e tornam-se invisíveis socialmente? Quantas vezes nos tornamos invisíveis diante de alguma situação ou promovemos a invisibilidade do outro?
Adriana Maria inicia seu texto com uma reflexão: “O pânico espalhou a cegueira ou a cegueira espalhou o pânico?” Seu pensamento se mostra interessante, afinal quantas vezes a falta de preparo em lidar com certas situações problematizam ainda mais a questão em jogo. A autora faz um paralelo do filme com o mundo real, no que se refere a postura de cada pessoa diante da deficiência. Para ela, a sociedade ainda não esta preparada para acolher o diferente. Falta estrutura, respeito e políticas públicas adequadas. Adriana revela que o SASF apresenta-se como alternativa para o descaso do governo e a falta de preparo da sociedade:
A mulher do médico foi essencial para auxiliar a todos no início do filme e penso que o nosso trabalho se compara com as atitudes da personagem, se colocar no lugar do outro, agir como facilitador e, na medida do possível, utilizar o “pouco” que temos para contribuir com o outro. O outro que não é nem melhor nem pior, apenas diferente. É muito fácil julgar, excluir e diminuir o outro, mas é muito mais forte, mais intenso e mais válido fazer a diferença e contribuir para a quebra de paradigmas e construção de conscientização para gerar mudanças.
Ivani Souza Silva evidencia a capacidade humana de adaptação frente as mudanças que podem acontecer. Entretanto, segundo a autora, essa adaptação pode prejudicar outras pessoas, como o caso do líder que promove a dor e o sofrimento. Ela diz que é possível que pessoas de bom coração apareçam nesse processo. Segundo Ivani: “A lição que este filme vem nos mostrar é que nós seres humanos precisamos aprender a amar, e que a pior cegueira é aquela em que enxergamos só o que queremos, não o essencial.”
Seguindo o mesmo raciocínio, Ronaldo Cardoso enfatiza a cegueira social como algo comum a muitas pessoas. Para ele o individualismo, a criminalidade, exploração e até o amor são formas de cegueira. Contudo, Ronaldo revela uma solução: “Somente a união e a compreensão e a vida em harmonia pode devolver luz, que está nas coisas simples com num café da manhã com amigos ou família [...].”
Ana Natalina inicia seu texto ressaltando a dificuldade e suas emoções em assistir o filme: “Me imaginei dentro do filme e fiquei com medo, achei tudo muito escuro e sem nexo [...].”. Ana traz luz a uma questão importante, no que refere a isolar quem foge da norma: “[...] por que é mais fácil isolar todos os que não servem mais.” Este ponto do pensamento de Ana me fez lembrar a Nau dos Loucos, relatada por Michael Foucault[5]. A Nau dos Loucos era um barco que passava pelas cidades européias recolhendo os loucos para levá-los a uma terra distante, longe de todos, em um lugar que não atrapalhasse a vida das outras pessoas. De certa forma, tanto o ocorrido no filme como as situações da vida real, como por exemplo os presídios, hospitais psiquiátricos e albergues não são uma espécie de Nau dos Loucos contemporânea?
Anderson Francisco faz um resumo detalhado dos acontecimentos do filme. Ele dá ênfase a atuação da mulher que não fica cega, a qual trouxe segurança e conforto frente a um contexto de dificuldades existentes. O autor discursa sobre a fragilidade do ser humano e de suas possibilidades de aprendizado.
O Ensaio sobre a Cegueira revela aspectos importantes de nossa cultura: a super valorização do aspecto visual. Mas essa não é uma discussão exclusiva dos dias atuais. Desde a época de Platão, filosofo grego que viveu a mais de dois mil anos atrás, indagações surgiram a respeito dos processos ilusórios que a visão pode oferecer. O pensador escreveu O Mito da Caverna[6]. A história de Platão discorre em uma caverna profunda, separada do mundo externo. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos vivem ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder se mover vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do sol, podendo ver, apenas, sombras dos outros e de si mesmos porque estão no escuro e imobilizados, forçados a olhar apenas para a parede do fundo, onde, também, sombras das coisas que ocorrem fora da caverna são projetadas. Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coisas que julgam ver e imaginam que o que escutam, e que não sabem que são sons vindos de fora, são vozes das próprias sombras e não dos homens cujas imagens estão projetadas na parede. Qual é, pois, a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam por realidade as sombras projetadas no fundo da caverna. Essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram. Que aconteceria se fossem libertados dessa condição de miséria? Um dos prisioneiros, incomodado com sua condição, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. Com muita dificuldade move-se e, enfrentando os obstáculos de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é o de retornar à caverna onde tudo lhe é familiar e conhecido. Sem disposição para regressar à caverna, aos poucos, habitua-se à luz e começa ver o mundo. Encanta-se ao finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão percebia apenas sombras. Desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, pensa nos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também. Ao retornar, os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com suas caçoadas, tentam fazê-lo espancando-o. Se mesmo assim ele teima em afirmar o que viu e os convida a sair da caverna, certamente acabam por matá-lo. Mesmo com esse final trágico, alguns prisioneiros ficaram tocados pelas palavras daquele homem e também decidiram sair da caverna rumo à realidade.
O que é a caverna? O mundo de aparência em que vivemos. O que são as sombras projetadas no fundo? As coisas que percebemos. O que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos, opiniões e crenças. O que é a luz do Sol? A luz da verdade. O que é o mundo iluminado pelo Sol da verdade? A realidade. Qual instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A consciência. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? Pode ser você. Platão escreveu “O mito da caverna” numa obra intitulada A República, entretanto, sua obra nunca esteve tão presente como está atualmente, tornando-se uma ferramenta reflexiva para a sociedade das aparências em que vivemos.
[1] SARAMAGO, J. Ensaio Sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[2] Período histórico iniciado na Inglaterra no século XVIII, caracterizado por mudanças nos processos de produção.
[3] DARWIN, C.(1859) A Origem das Espécies e a Seleção Natural. São Paulo: Madras, 2004.
[4] COSTA, F.B. Homens invisíveis: relato de uma humilhação social. São Paulo: Globo, 2004.
[5] FOUCAULT, M. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2008.
[6] CHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2003.
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