A LIBERDADE E A DOMINAÇÃO PSÍQUICA: Possibilidades nas relações humanas.

            O campo das invenções democráticas me toma a atenção. Calderoni[1] nos mostra que são “[...] maneiras criativas e solidárias de desenvolver e promover a autonomia e cooperação[...]”. Assim, a prática das invenções democráticas pode promover a potência e a liberdade do pensar, sentir e sonhar dos sujeitos. Essa liberdade psíquica vai de encontro à desconstrução das relações de poder.
            Ao longo da história imperadores, ditadores, religiões e sistemas alienaram e castigaram. Regimes oprimiram e calaram as vozes daqueles que buscavam a liberdade e, de alguma forma, ameaçavam seus poderes. Como exemplo, no final do século XV, os inquisidores Kramer e Sprenger[2], criaram métodos e maneiras de controle e dominação psíquica. O Malleus Maleficarum se tratava de um manual diagnóstico de desvios da normalidade. Era um DSM[3] da Idade Média. No entanto, o nosso manual tem sentido classificatório e, a depender da leitura que se faça, pode dar suporte ao tratamento da doença. Já o manual medieval também classificava, entretanto, com objetivo de punir, torturar e matar aqueles que fugiam da norma estabelecida, entendidos como os feiticeiros. As mulheres foram as mais perseguidas. Sardas no rosto, seios grandes, impotência sexual masculina, e tantos outros sinais mandaram milhares de mulheres para a fogueira. Rituais passados de mãe para filha por gerações, como a preparação de chás medicinais, eram entendidos também como feitiçaria. 
             Nesse sentido, La Boétie[4] em seu livro Discurso da Servidão Voluntária, revela a ilegitimidade do poder de um homem sobre o outro, demonstrando a irracionalidade da servidão, apresentada em sua obra como uma espécie de vício. Para La Boétie os indivíduos têm a liberdade de negar a submissão, mesmo que isso implique em riscos à sua existência.

Como o fogo de uma pequena chama torna-se grande e sempre cresce, e quanto mais lenha encontra mais está disposto a queimar; e sem que se jogue água para apagá-lo, é só não pôr mais lenha que ele, não tendo mais o que consumir, consome-se a si mesmo e vem sem força alguma, e não mais fogo - assim também, por certo, os tiranos quanto mais pilham mais exigem, quanto mais arruínam e destroem, mais se lhes dá, quanto mais são servidos, mais se fortalecem, e se tornam cada vez mais fortes e dispostos a tudo aniquilar e destruir; e se nada se lhes dá, se não se lhes obedece, sem lutar, sem golpear, ficam nus e desfeitos, e não são mais nada, como o galho se torna seco e morto quando a raiz não tem mais humor ou alimento. (LA BOÉTIE, 1999, p. 15)

O Malleus Maleficarum foi um dispositivo de controle e alienação, um equipamento de manutenção do poder da igreja, o poder de um grupo de homens sobre outros. Atualmente é possível reconhecer dispositivos que impedem a liberdade psíquica dos indivíduos. Eles podem ser de grandes proporções como os hospitais psiquiátricos, o sistema prisional, a intransigência dos governos, e a exploração do trabalho operário, de camponeses, atendentes de telemarketing e moto-boys. Amiúde, esses dispositivos também podem ser discretos, velados, no entanto, não menos avassaladores, como a postura profissional frente o paciente, dentro do núcleo familiar, na sala de aula e tantos outros espaços das relações humanas.

     O Serviço de Assistência Social à Família e Proteção Social Básica em Domicílio da cidade de São Paulo (SASF) atende famílias em situação de risco e vulnerabilidade social, famílias beneficiárias dos Programas de Transferência de Renda (Bolsa Família, Renda Mínima, Renda Cidadã) e, também, famílias participantes dos Benefícios de Prestação Continuada, idosos e pessoas com deficiência, todas moradoras do Distrito Jaraguá, região noroeste da cidade. O trabalho ocorre por atendimentos individuais, visitas domiciliares, reuniões socioeducativas, oficinas, palestras e passeios.
Nas reuniões sócio-educativas discutimos temáticas que fazem parte do contexto daquela população, como a migração, habitação, drogas, sexualidade, meio ambiente e tantos outros. Procura-se, nas reuniões, criar um espaço de validação da fala e da experiência. Um espaço em que a presença daquelas pessoas possa contar. Esse empoderamento do grupo permite trocas de vivências, choros e consolos, risos e convites do próprio grupo. Em busca da felicidade, Amigos da família, Sonho meu, Unidos pela esperança, Alegria de viver e Renascer de uma esperança são os nomes criados e escolhidos por eles em regime democrático de votação. O objetivo das reuniões é que esse espaço, construído para e por eles, seja fomentador de agentes multiplicadores para que, assim, essas pessoas possam levar para suas casas, suas famílias, sua comunidade esse espírito de liberdade psíquica, de criatividade, de reconhecimento de possibilidades e o sentimento de união, fraternidade, respeito e troca. Espera-se que o não, a falta, o difícil, tão presentes em suas vidas, não somente nesta vida mas, também, nas de seus antepassados, possam ceder espaço para um leque de opções em que os únicos limites  serão aqueles encontrados em seus próprios sonhos.


[1] Informação fornecida pelo Professor David Calderoni na disciplina Espinosa contra Aristóteles: Ciência do Singular e Ciência do Universal na Psicopatologia do Autismo e da Psicose Infantil no Curso de Especialização em Psicopatologia e Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, em 20 de Outubro de 2011.
[2] KRAMER, H; SPRENGER, J.(1484) O Martelo das Feiticeiras – Malleus Maleficarum. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2009.528p.
[3] Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
[4] LA BOÉTIE, E. (1577) Discurso Da Servidão Voluntária. São Paulo: Brasiliense, 1999. 239p.

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